O papel feminino na luta contra a Ditadura Militar - Generalizando
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O papel feminino na luta contra a Ditadura Militar

O papel feminino na luta contra a ditadura militar

No dia 31 de março de 1964, uma rebelião organizada pelo comandante da 4a Região Militar, Olympio Mourão, deu início ao golpe civil-militar.  As tropas de Olympio saíram de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro com objetivo de derrubar o governo do presidente democraticamente eleito, João Goulart, conhecido como Jango. A partir desse momento a sociedade brasileira caminhou para um estado de violações de direitos fundamentais e arbitrariedades de toda a sorte.

No entanto, esse período, que durou longos 21 anos, não foi vivido pelo povo de forma passiva, inúmeros foram os movimentos e organizações que lutaram contra a ditadura militar. A resistência ao regime militar contou com a participação e o protagonismo de muitas mulheres, de diferentes formas, ainda que em menor número que os homens. Elas participaram de organizações clandestinas,  partidos, sindicatos e movimento estudantil, desafiando o papel de passividade que a sociedade lhe impunha.

De acordo com pesquisas historiográficas, ao menos uma centena de mulheres com idade inferior a 30 anos, tiveram participação ativa na luta armada. Muitas perderam a vida e outras foram presas. A ação dessas mulheres, ou melhor, a qualidade da atuação delas, contribuiu para o questionamento dos papéis tradicionais de gênero.

Mesmo atuantes, as mulheres enfrentavam obstáculos até mesmo nas organizações das quais participavam. O questionamento a comportamentos e valores machistas era tratado como um tema menor. A gravidez e a maternidade eram consideradas incompatíveis com a militância, além da existência de uma divisão sexual de tarefas dentro da luta revolucionária. As mulheres, raramente, chegavam à liderança dessas organizações, por outro lado em muitos momentos eram dados a elas as tarefas mais perigosas, por acreditarem que elas eram menos visadas pelas forças repressoras. Um quadro que representa os preconceitos arraigados na sociedade daquela época.

As mulheres militantes, não só nas guerrilhas, mas também nos partidos clandestinos eram consideradas duplamente transgressoras. Primeiro, porque elas estavam atuando contra o regime estabelecido e segundo por contrariarem o papel de mães, esposas e donas de casa que a ditadura e a sociedade patriarcal reservavam para elas. Afinal, essas mulheres estavam rompendo com o estereótipo e ocupando o espaço público, o espaço político e a luta armada que eram vistas como inconcebíveis para elas. Por isso, quando eram capturadas pelo regime, as forças repressoras tentavam recolocá-las no “seu lugar”. Eram xingadas de vagabundas e prostitutas, obrigadas a ficar nuas em frente aos agentes do sexo masculino.

A tortura dispensada as mulheres era diferenciada. Além das perversidades que eles sofriam, elas eram submetidas sistematicamente a violência sexual, muitas grávidas abortaram de maneira forçada após as sessões de tortura. Em outros casos, eram aplicados choques elétricos em seus órgãos genitais.

A resistência feminina não se deu apenas com a participação de mulheres da classe média e estudantes. Com o processo profundo e acelerado de urbanização as periferias foram se organizando e muitas lideranças femininas foram despontando. Elas percebiam as dificuldades econômicas e políticas a partir das dificuldades dos seus cotidianos. Se reuniam em movimentos de bairros, para pressionar o poder público por melhores condições de vida. Eram donas de casa, trabalhadoras urbanas, faxineiras, empregadas domésticas que estabeleciam laços de vizinhança e solidariedade, os encontros se davam nas paróquias onde elas contavam com o apoio e a proteção de setores da Igreja Católica. Dessa forma, em plena ditadura surgia uma forma de organização e participação social de mulheres.

Apesar de muitas dessas mulheres estarem relacionadas ao catolicismo e a conformação de papéis tradicionais de gênero, elas conseguiram construir uma pauta própria de reivindicação que incluía respeito dos seus companheiros, denúncias de violência doméstica e igualdade de oportunidades.

Foi assim que surgiu o Clube das Mães, as associações de bairros, a oposição sindical, as comunidades eclesiais de base e o movimento contra o custo de vida. Em grande medida isso tudo ocorreu sob a proteção da Cúria Metropolitana de São Paulo, dirigida pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, que abriu suas paróquias para acolher essa nova organização popular no período mais violento da ditadura militar, de 1970 a 1974, durante o governo do general Médici.

Importante ressaltar que além das militantes de base e lideranças políticas das organizações de esquerda, as mulheres possuíam outras facetas que se tornaram relevantes na luta pela anistia e pelos Direitos Humanos. Muitas delas (companheiras, esposas, mães, filhas, etc.) organizadas nas mais diversas formas de lutas, procuravam por seus companheiros, maridos, filhos, irmãos e pais de maneira incansável nas portas dos presídios.

Exemplo dessas importantes mobilizações foi o surgimento, em 1968 no Rio de Janeiro, da União Brasileira de Mães. Essas mulheres se conectaram, uniram-se e formaram comissões de presos e desaparecidos.  Aquelas que saíam do cárcere iam se incorporando a essas comissões, levando suas experiências de lutas e o testemunho dos seus sofrimentos.

Desses grupos se originou O Movimento Feminino pela Anistia que contou com a participação de homens e mulheres e se espalhou pelo Brasil, ampliado pelo Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA) e seus comitês regionais espalhados por vários estados.

As mulheres tiveram protagonismo na luta contra a ditadura. Elas lideravam e formavam grande parte das lideranças pela anistia em diversas organizações. Assim, romperam com os estereótipos que as encerravam dentro do lar, mostrando para a sociedade que o lugar delas é onde elas desejam estar.

Passados 36 anos do fim da ditadura é preciso que tenhamos consciência da luta efetuada por tantos brasileiros e brasileiras para combater o regime e restabelecer a democracia, por toda a dor causada e pelas violações realizadas nesse período. Ditadura nunca mais!

Marusa Silva

Marusa Silva

Doutora em Sociologia Política, pesquisadora e autora de livros e artigos sobre desigualdade de gênero e integrante do Atelier de estudos de gênero da Universidade Estadual do Norte Fluminense – RJ

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