Princesas Feministas? - Generalizando
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Princesas Feministas?

Princesas Feministas?

Ah, o mundo encantado das princesas! Castelos, vestidos volumosos e chamativos, magia, príncipes…todas nós mulheres e meninas, fomos e/ou somos socializadas com estas referências.

Estúdios famosos produziram princesas que encantaram gerações e que colaboraram para estabelecer determinados padrões de comportamento. Você já deve ter ouvido por aí que a arte imita a vida, não é? Isso faz sentido quando observamos, com mais cuidado, a mudança, lenta e sutil, que vem acontecendo nas mais recentes produções de grandes estúdios como a Disney, por exemplo.

Este é um importante passo se considerarmos que o batizado “mundo encantado” tem, sobretudo nas crianças, muita influência. As narrativas das histórias podem ser facilmente absorvidas pelos pequenos culminando em efeitos danosos.

Com o passar do tempo, muitas destas histórias, que são consideradas clássicas, enfrentaram questionamentos e apontamentos. Ficar esperando que um príncipe apareça, que resolva todos os problemas e seja responsável pela felicidade da princesa não é mais uma opção aceita.

As princesas clássicas apresentam um padrão estético que é considerado desejado, perseguido, mas que não é real.[1] Todas elas são brancas e magras. Além disso, vale a reflexão sobre o fato de que outra mulher é retratada como inimiga, sinalizando para a tão incentivada rivalidade entre as mulheres. Essas mensagens podem, se não bem direcionadas, trazer importantes consequências para as crianças, em especial as meninas, que não se veem representadas por essas personagens.

Muitas dessas animações apesar de levar o nome das princesas não as tornam de fato protagonistas. Veja o caso da “Bela Adormecida”, que passa boa parte do filme conversando com os animais, depois se apaixona à primeira vista por um príncipe, fura o dedo em uma roca e adormece. Enquanto isso, o príncipe foge da masmorra, luta e derrota todos os inimigos que surgem pela frente (inclusive a Malévola) e ainda beija e desperta a Aurora sendo o motivo de sua felicidade eterna. Onde está o protagonismo da princesa?

Mas, se a arte imita a vida, como propõe o ditado, vemos alguns pequenos esforços a partir de 1992, de grandes estúdios, em corrigir a narrativa da “donzela em perigo” esperando ser salva por um príncipe.  No mesmo ano, uma releitura apresentou a princesa árabe, Jasmine, que diferente de todas as suas antecessoras fez seu par romântico, Aladdin, suar a camisa para conquistá-la. Questionadora e ambiciosa, ela enfrenta o pai quando se vê pressionada a arrumar um marido: “Por que um príncipe estrangeiro governaria melhor o meu povo do que eu?”. Outro ponto interessante nesta releitura é que temos um bruxo, isso mesmo! Um homem como bruxo!

No cenário de mudanças, Pocahontas chama atenção para a diversidade, já que é uma princesa indígena. Mulan, lançado em 1998, apresenta a primeira princesa chinesa. Ela desafia as leis locais que não permitiam que mulheres se unissem ao exército. Ela passa boa parte do filme disfarçada de homem e depois de ter sua identidade revelada se torna a maior guerreira da China. Tiana, a primeira princesa negra, apresenta vilões como caras masculinas e uma narrativa onde o amor não vem mais em um cavalo branco. Moana, a “caçula” da Disney, é uma princesa que não usa vestido e que demonstra força e determinação.

Se o objetivo do texto é apontar para algumas importantes mudanças nas histórias das princesas, não podemos deixar de citar Merida, que é de 2012. Uma princesa totalmente fora dos padrões e que mostrou que lugar de princesa é onde ela quiser.

Na toada das mudanças, Frozen, ressignifica a ideia de amor verdadeiro. Ela não é representado pela relação romântica entre o príncipe e a princesa e sim entre duas mulheres, duas irmãs. Algo até então inexistente nesses tipos de animações.

No entanto, não se deve perder de vista que mudanças como estas, apesar de serem importantes, não são, exatamente, um comprometimento com os ideiais de igualdade de gênero e de representatividade. Como são produtos, precisam acompanhar as transformações sociais. Se a sociedade é diversa e as pessoas começam a questionar e a exigir representatividade, as animações buscam atender essa demanda para lucrar e não ficar para trás.

Em um mundo onde o feminismo vem se tornando cada vez mais presente, a princesa ocupa um lugar de privilégio que é criticado pelas correntes feministas contemporâneas. Ser princesa significa que muitas outras foram silenciadas e quando há silenciamento não há espaço para a sororidade. Por outro lado, se existem as princesas que elas possam promover a diversidade e o convívio harmônico com o diferente. Assim, talvez, possamos enxergar o feminismo nelas.

[1] Sobre esse debate leia o texto “você sabe o que é body shaming?” em: www.generalizando.blog.br

Marusa Silva

Marusa Silva

Doutora em Sociologia Política, pesquisadora e autora de livros e artigos sobre desigualdade de gênero e integrante do Atelier de estudos de gênero da Universidade Estadual do Norte Fluminense – RJ

1 Comentário
  • Avatar
    Angélica Lira
    Publicado em 12:17h, 08 julho Responder

    E a pequenininha do detona Ralf, no final, quando se descobre princesa abre mão do título para viver em democracia, perdoando os que foram maus e que lhe trouxeram prejuízos físicos, morais e patrimoniais.

    Sempre muito bons seus textos, Marusa. Parabéns mais uma vez.

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